sábado, 4 de outubro de 2008

Reflexo

De repente, não mais que de repente,
eu páro e me estranho.
Fixo a imagem refletida,
e tento localizar ali algum traço conhecido.
Vejo as marcas do tempo,
os olhos tristes,
e me pergunto como cheguei até aqui.

Saber que tudo seria tão diferente,
pode despertar a culpa adormecida.
Mas tentar descobrir o lado positivo,
valorizar qualquer coisa boa que se tem,
faz com que os erros se tornem parte importante do que somos hoje.

Sem a dor, não há regalo.
Sem a tristeza, a alegria não nos vale nada.
Sem todos os erros, os acertos são mero acaso.

Nossos fantasmas estão ali,
prontos para serem despertos,
a qualquer vacilo.
Não nos cabe escolher a hora que retornarão,
mas sim a tarefa de aprender a lidar com isso.

Tenho a alma pesada,
de tantos desencontros,
muita desesperança...
Mas tudo isso pode me parar,
ou ser a válvula propulsora
que me fará querer sempre mais.

Não importa o quanto pareçam distantes minhas lembranças,
o que vale é saber que existiram,
e sempre estarão aqui pra me lembrar de onde vim.

Sabendo disso,
não posso me conformar em ser menos do que já fui,
em deixar que a realidade destrua minhas ilusões mais puras,
o meu lado criança que ainda acredita no bom e no belo.

A amargura é feia,
e só nos torna envelhecidos e pedantes,
sempre esperando o pior de tudo.
E não foi isso o que desejei pra mim,
o que sempre quis foi ser alguém que valesse a pena.

É fácil se concentrar no que dói,
e não querer mais procurar,
por medo de se machucar mais e mais...
Só que o que torna nosso caminhar menos tedioso
é a capacidade de sempre nos surpreendermos,
com o destino e com nós mesmos.

Ninguém é só uma coisa,
somos muitos, somos todos em um só.
E essa luta interna pelo controle
faz com que sejamos capazes de ir
sempre mais longe do que esperávamos
e nos descobrir mais fortes do que acreditávamos ser.

Quando achamos que já vimos tudo,
já fizemos tudo,
já sabemos tudo,
a vida vem e nos mostra
como somos meros iniciantes
na arte de viver...

E que assim seja!

Quero ser um eterno aprendiz,
mantendo a humildade dos que sabem que nada sabem,
e a esperança dos que esperam um dia poder saber alguma coisa, enfim.

Então fecho os olhos,
e já consigo enxergar...

domingo, 28 de setembro de 2008

não quero mais o pouco, quero o muito.
não quero espera, quero ação.
não quero ilusões, quero a verdade.
não quero existir, quero viver.
não quero apenas diversão, quero plenitude.
não quero anestesia, quero sentir.
não quero somente dúvidas, quero também umas poucas certezas.
não quero conformismo, quero enfrentamento.
não quero o que já foi, quero o que ainda virá.
não quero mais quem fui, quero o que posso ser.

"não quero a beleza, quero a identidade."

não quero culpas, quero aprendizado.
não quero sonhos, quero realizações.
não quero enganos, quero acertos.
não quero promessas, quero atitude.
não quero só olhar, quero ver.
não quero que me entendam, quero apenas respeito.
não quero comodidade, quero o frio na barriga.
não quero regras, quero a exceção.
não quero qualquer coisa, quero o que é meu.
naõ quero um qualquer, quero ele.

"não quero dinheiro, quero amor sincero."

não quero estagnar, quero ir além.
não quero a dor, quero a satisfação.
não quero só o abstrato, quero também o concreto.
não quero o vulgar, quero o delicado.
não quero superfície, quero profundidade.
não quero o que já conheço, quero o inesperado.
não quero o básico, quero o completo.
não quero nada, quero tudo.
não quero apenas querer, quero conquistar.

e depois disso...

quero continuar querendo.

O milagre das folhas

" Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas.
Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos.
A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e
de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim.
Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a
escolhida das folhas.
Com gestos furtivos tiro a folha dos meus cabelos e guardo-a na bolsa,
como o mais diminuto diamante.
Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca,
engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança.
E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios.
Achei Deus de uma grande delicadeza. "

Clarice Lispector

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Desconexa

E por que eu me incomodo?, ela pergunta.
Sei lá, talvez por não conseguir entender, ou me sentir afetada de alguma forma por tudo que presencio o tempo todo ao meu redor...
Meu problema é nunca conseguir fechar os olhos, calar o que sinto, deixar guardado num canto escondido o que me faz mal, enquanto sigo como se tivesse tudo na mais perfeita ordem.
O pior é me sentir estranha em mim por não ter qualquer identificação com quase nada. É como se por trás do que aparento fosse tudo diferente, se ninguém percebesse a essência do que sou... Mas será que eu sei? Ou que é isso mesmo e não uma invenção pra tornar tudo mais interessante? Ah, vou lá eu saber...
Só o que sei é o que não quero, não mais. Sei lá se um dia quis mesmo, ou apenas me contentei, acho que foi isso sim, só que agora não me contento em só me conformar, afinal isso não leva a nada, só ao que já se conhece, enquanto que a inquietude de querer ir além pode nos levar a lugares inimagináveis...
É muito mais fácil agir e pensar como todo mundo, é mais prático, não exige muita reflexão ou argumentação, é só ir lá e pronto, tá feito. E ninguém vai questionar também, pois difícil quem se importe em perguntar o porquê...
Desde muito tempo me pareceu chato isso de as pessoas parecerem todas saídas da mesma fábrica, com as mesmas roupas, cabelo e jeito de falar, e aí tudo que eu queria era não me parecer com ninguém.
Só que aí quando isso se tornou um fato, não sabia como me comportar em meio a essa gente que não reconhecia. E até hoje não sei... Então eu me visto de um jeito normal, tento sorrir e ser só mais uma pessoa que vive porque assim lhe disseram pra fazer, sem se perguntar se é o que queria ou como queria...
Tá, nem tudo precisa ser tão ruim ou difícil, mas complicar as coisas faz parte de mim. Talvez torne tudo um pouco mais emocionante...
Mas já que não consigo saber o que se passa com os outros, seria uma boa compreender alguma coisa em mim e aí saber como fazer com que haja sentido nisso.
Se é que há...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

E quando ela acordou...

... ele ainda estava lá.

Não era um sonho afinal!

Ou melhor,
era o sonho de toda sua vida,
que estava se tornando realidade...

Ela só esperava que isso não estragasse tudo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

" Feliz é o destino da inocente vestal!
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança. "


Alexander Pope

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Pessoas são estranhas...

" As pessoas são estranhas quando você é um estranho
Os rostos ficam feios quando você está só
As mulheres são malvadas quando não lhe querem
As ruas são irregulares quando você está triste

Quando você é um estranho
Rostos se formam na chuva
Quando você é um estranho
Ninguém se lembra do seu nome
Quando você é um estranho
Quando você é um estranho
Quando você é um estranho "

People Are Strange, The Doors